<i>Conspirações</i>

Jorge Cadima

ISIS serve de pretexto para o regresso de tropas dos EUA ao Iraque

Não se trata de 'teoria da conspiração', mas de conspiração confirmada e documentada. O grupo norte-americano Judicial Watch publicou em Maio documentos oficiais dos ministérios dos Estrangeiros e Defesa dos EUA, obtidos após processo judicial. O jornalista Seumas Milne (Guardian, 3.6.15) refere «um relatório secreto dos serviços de informações dos EUA, escrito em Agosto de 2012, que estranhamente prevê – e na prática saúda – a possibilidade dum 'principado Salafita' no Leste da Síria e dum Estado Islâmico controlado pela al-Qaeda na Síria e Iraque. Em flagrante contraste com as alegações ocidentais de então, o documento da Defense Intelligence Agency identifica a al-Qaeda no Iraque (que se viria a tornar no ISIS) e os seus correligionários Salafitas como 'as principais forças que dinamizam a insurreição na Síria' e declara que 'os países ocidentais, os estados do Golfo e a Turquia' apoiam os esforços da oposição para controlar o Leste da Síria». Diz o relatório: «a possibilidade de estabelecimento dum principado Salafita declarado ou não» é «precisamente aquilo que as potências que apoiam a oposição desejam, de forma a isolar o regime sírio».

A confissão de que o súbito aparecimento e surpreendentes êxitos do 'Estado Islâmico' são «precisamente aquilo que as potências que apoiam a oposição [síria] desejam» não surpreende. Pelo contrário, ajuda a explicar muita coisa. O ISIS serve de pretexto para o regresso de tropas dos EUA ao Iraque (NYTimes, 11.6.15). 'Justifica' bombardeamentos e acções de tropas especiais dos EUA em território sírio (NYTimes 16.5.15), à revelia do seu governo. A confissão ajuda a explicar também a recente notícia da agência iraniana FARS de que aviões dos EUA, a pretexto de atacarem forças do ISIL, bombardearam sim um batalhão do exército iraquiano «matando 6 soldados e ferindo outros 8» (6.6.15). Explica ainda os repetidos apoios confessos de Israel aos extremistas islâmicos sírios, como no site ynetnews.com (versão Internet em inglês do jornal mais lido de Israel, o Yedioth Ahronoth), que titula: «Vídeo raro mostra soldados das IDF [forças armadas de Israel] a salvar a vida a rebelde sírio nos Montes Golã», e adianta: «muitos dos feridos sírios recém-chegados a Israel em busca de cuidados médicos pertencem a grupos islâmicos extremistas» (12.5.15). A Bloomberg noticiou (4.6.15) que «desde o início de 2014, representantes de Israel e da Arábia Saudita realizaram cinco encontros secretos para discutir um inimigo comum, o Irão. Na 5ª-feira, os dois países saíram do armário para anunciar esta diplomacia encoberta no Council of Foreign Relations, em Washington». O anúncio oficial do noivado israelo-saudita, apadrinhado por um dos principais think tanks da política externa dos EUA, contou com a presença do general saudita Eshki, conselheiro do ex-embaixador nos EUA príncipe Bandar bin Sultan, mais conhecido por 'Bandar Bush' pelas suas ligações a essa 'família real' dos EUA. Eshki defendeu uma «mudança de regime no Irão» e «um Curdistão independente, a ser constituido por território hoje pertencente ao Iraque, Turquia e Irão». Pelo lado sionista, esteve Dore Gold, ex-embaixador de Israel na ONU, que em 2003 escreveu o livro «'O Reino do Ódio', sobre o papel da Arábia Saudita no financiamento do terrorismo e extremismo islâmico». O ódio transformou-se em amor porque, explica Gold, o livro foi escrito «no auge da segunda Intifada, quando a Arábia Saudita financiava e angariava fundos para o assassinato de israelitas» e hoje «é sobretudo o Irão que trabalha com os grupos palestinos que continuam ligados ao terrorismo». Leia-se: à resistência.

A aliança EUA-Israel-Arábia Saudita une os principais padrinhos do terrorismo e da guerra no plano regional e mundial, todos mestres na mentira e na dissimulação sem princípios. E torna mais do que legítima a pergunta: o que se passou realmente em Nova Iorque, no dia 11 de Setembro de 2001?




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